COVID-19: Na linha da frente com o Centro Comunitário de Tires

12 de Maio de 2020
helenabonzinho

Quando saiu a diretriz de confinamento para as populações com maior risco de contrairem a infeção, os centros de dia para séniores tiveram que suspender todas as atividades presenciais. O Centro Comunitário de Tires transferiu os utentes mais prioritários para o Serviço de Apoio Domiciliário. Este serviço já fazia parte da atividade normal do CCT e destina-se séniores que não podem ou não pretendem frequentar o Centro de Dia. Consiste na prestação de serviços de alimentação e de higiene pessoal em casa de cada utente.

Novas formas de fazer

Com a suspensão das atividades, a questão que se põe é como se supera “o corte na socialização” que o Centro de Dia permite, sublinha Sandra Afonso, Diretora Técnica do CCT. “O Centro de Dia tem uma componente de socialização muito marcante e a sua existência fundamenta-se nisso.” As estratégias adoptadas passaram por manter as relações à distância “Temos contactos frequentes com os familiares e com os séniores. Foi importante para eles sentirem, apesar deste encerramento abrupto, que nós estávamos  presentes e fomos comunicando de acordo com aquilo que foi possível. Uns pelo whatsapp ou videochamada, outros pelo telefone, e ai foi uma alegria imensa verem-nos e para nós também.” Para os séniores, a componente de estimulação cognitiva é importante e foi possível recriar passatempos ou atividades como a musicoterapia.

“Eu não quero comer, eu quero é conviver”

“Desde que encerramos, recebemos um telefonema de um senhor que está sempre a perguntar se é hoje  que abre o centro de dia. Porque ele vivia aqui e diz eu não quero comer, eu quero é conviver.” Sandra Afonso mostra-se empenhada em abordar o mais rapidamente possível os efeitos negativos do confinamento e do isolamento social. A avaliação constante das necessidades dos utentes mostra que é preciso uma atenção redobrada quando , num telefonema , algo pode estar a correr menos bem. Sobretudo para as pessoas que se encontravam habituadas às rotinas do Centro de Dia, ao convívio e às atividades em grupo. Os sinais também podem vir das famílias para quem o Centro de Dia é um apoio fundamental na relação com o seu idoso. Torna-se fundamental reverter a perda de competências sociais e dos vínculos afetivos e isso só se consegue presencialmente. “Temos que ir ao domicilio e ver e presenciar . Aquela pessoa que não nos parece bem, que liga todos os dias, se calhar temos que ir jogar dominó com ela. Temos que ir averiguar como ela está e isto tem que ser feito na presença.”

“Neste tempo de distância, não podemos perder o olhar humano, próximo e sensível para com os mais velhos. Temos que aliviar o silêncio da distância e atualizar o olhar do afeto. Mesmo na longínqua janela do último andar, o aceno de um abraço ou de um beijo invisível é um sinal da importância da pertença comunitária. Este é também o tempo de desafiar a distância e encurtar a solidão. Somente nesta certeza de união, podemos confiar e acreditar na missão que diariamente nos comprometemos”.

A importância da coesão das equipas de trabalho

As mudanças bruscas que as organizações tiveram que enfrentar, e que que passam por compatibilizar alterações de procedimentos com os cuidados e proteção fundamentais para manter a segurança de utentes e colaboradores, puseram as equipas de trabalho sob testes de resiliência e capacidade de adaptação. “Há um caminho para trás que agora se reforça em tempo de crise.

Semeaste e agora estás a colher” sublinha Sandra Afonso a propósito do investimento que é feito ao longo do tempo no sentido de coesão de equipa. A coesão agora sobressai porque há um grande alinhamento da equipa em torno da missão da instituição e que é na ação diária que esta se cumpre. Isto permite que a equipa atue com elevado sentimento de confiança mútua.

Os cenários para enfrentar o futuro

“Temos que ter consciência que um dia o Centro de Dia tem que abrir, obviamente , tem que abrir com prudência, com segurança, e vamos criando cenários.” Para breve, está a perspectiva de retomar ainda ao domicílio, os apoios psicológicos e de fisioterapia para os utentes mais prioritários. Quando a instituição puder retomar as atividades presenciais, o mais provável é que estas privilegiem uma frequência rotativa dos utentes, para evitar no inicio maiores concentrações de utentes num mesmo espaço.